Arquiteto discute proposta de polinucleação apresentada em SP

Sábado, 10 de agosto de 2013

Arquiteto discute proposta de polinucleação apresentada em SP

Sábado, 10 de agosto de 2013

Projeto poderia qualificar e equilibrar a excessiva fragmentação da metrópole paulista
O Plano Diretor Estratégico encaminhado pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, à Câmara Municipal tem como uma de suas principais propostas é a polinucleação, ou seja, dinamizar áreas da cidade que hoje têm baixo desenvolvimento, de forma a gerar emprego nessas localidades.

O conceito é substituir a proposta de uma cidade radial, onde tudo converge para o Centro, para uma cidade distribuída nos bairros. Assim as pessoas poderiam trabalhar mais perto de casa. O eixo da proposta é o Arco do Futuro, elaborado para desenvolver os bairros.

A abertura de vagas de emprego na periferia melhora a qualidade de vida da população e beneficia diretamente a cidade ao evitar grandes deslocamentos entre a casa e o trabalho. A expectativa é de que isso reduza congestionamento e racionalize o uso do transporte público.

Segundo o arquiteto Adalberto da Silva Retto Jr., da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp, Câmpus de Bauru, a ideia de polinuclação assume um sentido particular no atual contexto paulista. Em uma metrópole “sem medida”, onde os serviços estão polarizados e concentrados em áreas mais privilegiadas, os polinúcleos poderiam ser estratégias espaciais e programáticas importantes para qualificar e equilibrar a excessiva fragmentação da metrópole de SP.

Para Retto Jr., algumas medidas serão necessárias para que o modelo de polinucleação, já bastante conhecido dos urbanistas, possa ser adaptado à realidade atual. Antes o polinúcleo foi pensado como possibilidade de expansão da cidade. Agora, em uma cidade já consolidada e com problemas sérios de desequilíbrio e fragmentação, eles devem funcionar imediatamente como uma redução escalar, que vai alterar as relações imediatas entre partes da cidade (não mais bairros), privilegiando resoluções na escala local, sem negligenciar   articulações nas escala da paisagem e do território.

“O polinúcleo tem que ter uma resolução multiescalar, do ponto de vista espacial e programático. Essa seria a possibilidade de levar para áreas mais pobres e fracas mais estímulos e mais ofertas em uma associação entre qualidade espacial e ofertas de serviços básicos e reforço da economia. Por isso, a formulação de bairro é ultrapassada, pois o polinúcleo deve atuar para dinamizar cada vez mais a área, do ponto de vista de sua utilização e inserção na rede mais ampla da metrópole”, afirma.

De acordo com o professor da Faac, cada polinúcleo tem que dizer exatamente as medidas que serão necessárias. Isso significa dizer que um levantamento minucioso da área e suas articulações (existentes e possíveis) devem ser registrados e discutidos com a população, pois, mais do que os profissionais, são os residentes e suas formas de locomoção é que podem nos levar a um dimensionamento da problemática e sua resolução. “Nesse caso o modelo não é para ser reproduzido, pois já existe cidade e é esta cidade que vai dizer a melhor forma de se tornar parte da metrópole paulistana”, acredita.

Reto Jr. explica que o polinúcleo, antes de mais nada, deve gerar qualificação para a área graças a serviços essenciais para os moradores e deslocamentos com qualidade a partir de calçadas com acessibilidade universal articulando todos esses serviços em uma Trama Urbanística Mínima.

Assim, surgem áreas para comércio, bancos, subprefeituras com serviços municipais e governamentais e culturais. “A partir disso, pouco a pouco vai se estabelecendo uma dinâmica nova capaz de sustentar uma sociabilidade maior com uma economia local, já que as articulações com a rede maior da metrópole vão estar dando suporte para evitar o isolamento da área (tanto físico como econômico)”, comenta Retto Jr.

Por isso é que o polinúcleo tem que ser resolvido nas várias escalas, explica o professor da Faac. “O comércio e serviços são importantes, mas outras tantas atividades também podem nascer, pois a pequena industria não necessita mais de grandes áreas para se instalar. Vale ressaltar, que cada polinúcleo deve ser pensado como parte de uma metrópole e como uma parte de cidade”, diz.

Retto Jr. acredita que um ponto de partida importante é abolir a estrutura existente do bairro como o elemento espacial a ser considerado. A trama metropolitana funciona de forma (às vezes) radicalmente oposta a esta formulação física dos bairros. Nesse sentido, não teria como estimar imediatamente, mesmo porque equipes irão ter que se articular para começar gerar hipóteses para localização dos polinúcleos. “Cada um funcionará como uma estratégia de qualificação social e econômica”, conclui.

O professor da Unesp lembra que sua experiência de polinucleação no desenvolvimento da revisão do Plano Diretor Participativo de Jaú, SP, onde ela foi penada como estruturação de um plano regional. “Isso poderia servir como contraponto para entendimento de como a partir de dois contextos a mesma formulação pode passar por adequações”, esclarece.

Retto Jr. indica que uma grande questão é que, a partir da década de 1970, nas cidades médias e pequenas do interior paulista, inicia-se um processo de crescimento acelerado que levou à formação de cidades extensas com periferias  fisicamente desconexas. “Nos anos de 1990, a  intensa formação de condomínios de classes média e alta, ao longo dos eixos de ligação entre cidades altera gradativamente, não somente as relações econômicas entre  as mesmas, mas a relação entre centro x periferia, que a partir da formação de eixos urbano-territorias internalizados ao tecido urbano com lógicas próprias e ocupações diferenciadas, afirmam uma nova condição para pensarmos a cidade no território”, diz.

A análise minuciosa das relações entre 10 cidades durante a revisão do Plano Diretor Participativo do Município de Jaú levou a uma proposição de um Plano Territorial a partir de polinúcleos. De um lado, a ideia de reconexão urbana, priorizando a cidade compacta; de outro, a ideia de reconexão ambiental, permitindo atenuar o impacto de infraestruturas e impermeabilização no território. “No aspecto mais geral, afirma-se a tentativa de delinear um plano sustentável territorial capaz de enfatizar a articulação entre as cidades à partir de serviços comuns, sem perder as particularidades e individualidades de cada paisagem”, conclui.

Jau que foi elaborada pelo grupo SiTU (Grupo de pesquisa em sistemas integrados territoriais e urbanos da Faac/Unesp/Bauru), com coordenação geral de Adalberto da Silva Retto Jr. , que tem como integrantes Profa. Dra. Marta Enokibara vice coordenadora; Arq. João Felipe Lança coordenador estagiários; estagiários Unesp:  Aline Kanashiro, Rayssa Cortez, Allana Marchiori de Sena, Caroline Bizin, Fabio Chaves Sgavioli, Julia Coelho Dourado, Leandro Fontana, Mondlane da N. da Silva Joaquim, Rosevelth Hélcio da Ressurreição e Melo, Sulliman Gato Scriboni, Tais Schiavon, Victor Rüeger Lucredi, Izabella de Camargo Aversa, Isabela Braga, Gabriela Monteiro, Vitor Rossi Costa, Maria Fernanda Gonçalves, Ton Pina, Jaqueline Mongeroth, Guilherme Neves.

Fonte: Redação


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